A próxima crônica
Não tenho lembrança de quando a ouvi, ou li. Mas hoje, ao escutar o noticiário esportivo recebi a notícia com pesar seguido de um sentimento de saudade. Partiu Humberto de Campos. Esta foi a frase dita pelo apresentador. Talvez poucos o conheciam, ou ouviram falar. Como pessoa, usaria um termo do qual o mesmo se classificava: um abusado. Como cronista esportivo, demorará a surgir outro, na coluna escrita do matutino e no programa do rádio. Humberto foi na história do rádio paraibano um diferencial em toda sua carreira. Tive o privilégio de acompanhar seus comentários desde criança, quando após o almoço deitava na cama ao lado de Pedrinho, meu irmão, para ouvir os programas que marcaram época na radiofonia campinense. Eram eles: “Os Filmes do Dia”; e o mais ouvido, “Jogo Duro”. Sua voz soava grave através do rádio e as palavras eram pronunciadas com sílabas bem explicadas, os “R’s” e “S’s”, redobravam e a entonação era o que não faltava na voz deste locutor. Engraçado, o curto programa dos cinemas da cidade era só pra anunciar os filmes, mas Humberto dava um “caldo” diferente tecendo um rápido comentário quando a projeção não era boa.
Conheci pessoalmente “seu Humberto”, quando o mesmo parava seu fusca amarelo na esquina da antiga CELB, para tomar uma “gelada”; sorvete raspado de coco com maracujá, diga-se, da mais barata. Saíamos da Escola Normal, também com o mesmo intuito e por coincidência nos encontrávamos rodeando o carrinho de geladas de seu Cícero, ou Ciço, (como ele chamava). Sempre que podia, fosse no rádio ou lendo suas crônicas nos matutinos de Campina, o fazia, pois além de um bom comentário ou alguma história mirabolante (na falta de futebol), Seu Humberto também dava uma aula de português. Na aplicação da gramática era exigente até dizer basta. Mas por outro lado, brincava com nomes de companheiros seus, ou “assassinava” a escrita e a pronuncia, trazendo no ar da seriedade um pouco de comicidade, tipo: “Leonardo póbrema”, “o pessoá da grôbo”, “a ráida”, e outros que não lembro agora. Humberto foi uma de minhas fontes, a forma séria e ao mesmo tempo temperada com romantismo e irreverência me serviu de guia. De algumas crônicas suas que guardei, jamais esquecerei, “o meu filho doutor”. Escrita para seu filho que se formava na mesma turma com Rodrigo. Recortei e dei pra Lucinha, ler. Mesmo antes de terminar, ela passou o papel para alguém concluir, pois sua voz estava embargando e de seus olhos desciam lágrimas, tamanho era o sentimento de amor colocado naquelas linhas. Linhas escritas com o coração. Mais tarde, tomei o título emprestado e escrevi para Lita, desta feita, pela chegada da formatura de Giuseppe, nosso primeiro doutor.
O grande cronista esportivo teve poucos simpatizantes em sua trajetória, com especialidade os que estavam dentro das quatro linhas. Seus comentários sobre “os boleiros”, eram contundentes, fortes. Jogadores iniciando carreira e os que vinham de fora, quando não correspondiam, entravam bem em suas crônicas. Sobretudo, ganhou esta fama por ser realista, transmitir a verdade, dar cara e corpo ao que dizia através dos microfones da rádio.
Um fato para mim que mais marcou a trajetória deste locutor, ocorreu no ano de mil novecentos e oitenta. Após dez anos trabalhando na rádio Caturité, Humberto de Campos retornava para a Rádio Borborema. Coincidentemente a chamada que anunciava sua volta trazia como fundo musical, uma música de Gal Costa, que fazia sucesso na época. “E assim se passaram dez anos”. A música iniciava e depois de alguns segundos, aquele incomparável vozeirão entrava dizendo: “estou de volta depois de dez longos anos”.
A próxima crônica, quando ouvirei? Talvez, quando tentar sintonizar a rádio da imaginação e ouvir bem distante o fundo musical indicando mais uma edição dos “Filmes do Dia” e “Jogo Duro”. Saudades.
Guêga 23.10.06
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
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