segunda-feira, 1 de março de 2010

Passando para o presente

Passando para o presente



Ontem, quando da passagem do aniversário de nosso genitor, nos reunimos para comemorar sua data natalícia com um almoço e um bolinho em alusão ao dia. Foi muito legal. No entanto, não discorrerei a escrever propriamente sobre o encontro, hoje, mudarei o foco, procurarei expressar um legado, um exemplo que ele nos proporcionou durante todos estes anos.



Na Carta de Paulo aos Efésios, capítulo seis e versos de um a três, vemos o seguinte:



“Vós, filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa; Para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra”.



Partindo deste texto, trago para nossa reflexão algo que foi muito presente na vida de nosso pai. Falo aqui da reverência e o respeito que o mesmo nutriu por sua mãe até o dia de sua partida. Logo aos três anos de idade perdera seu pai, na verdade, ele abandonara o lar para nunca mais voltar. Criado apenas por ela, que depois voltou a casar, o velho Gino teve praticamente o lado materno atuando nas funções de pai e mãe. E nem por isso, deixou de render-lhe o respeito necessário e um amor incomum. Fui testemunha de encontros dele com ela e a forma como lhe dirigia a palavra, sempre, em todas às vezes a chamava de “senhora minha mãe”, ou, “Ia, a senhora mandou me chamar?”. Não quero fazer referência ao pronome de tratamento, também, mas especialmente ao aparato de como se pronunciava dentro do contexto, mãe e filho, e se assim fora ensinado, carregou sempre consigo esta maneira.



Em certa ocasião, mesmo depois de casado, ela o chamara a atenção por alguma peripécia que aprontara. No entanto, demonstrando sua posição de mãe, usou um modo todo seu para falar-lhe severa e duramente. Serrou os punhos e com a mão fechada (em forma de soco) encostou em seu rosto desferindo-lhe palavras dizendo que o quebraria se ele respondesse. Em contrapartida, ele balbuciou que homem algum faria um gesto daquele, mas como era sua mãe ele aceitaria. Novamente ela voltou a repetir o gesto dizendo que se calasse e repetiu a frase.

Não questiono o gesto físico, apesar do modo severo e rude, mas era seu jeito e por outro lado, ele soube acatar a admoestação, mesmo que bruta, de sua mãe.



Noutras épocas, ela, com a idade avançada, quase sem sair de casa, porém, todos os domingos, impreterivelmente, meu pai saía de sua casa para ir tomar a benção de sua mãe. Todos os domingos atravessava dois bairros a pé com o intuito de visitá-la, pedir-lhe a benção e prosear por alguns minutos. Chegando lá, promovia algo como se fora um ritual. Então, em todos estes momentos de visitas ele lhe ofertava pequenas quantias de dinheiro, valores que nos dias atuais talvez chegassem a cinco ou dez Reais, mais ou menos, mas que eram recebidos por ela como se fosse uma quantia sem igual, e sempre, todas às vezes dizia: “Precisava não, Geno! Precisava não meu fiii”! Obrigado! Quando tomava conhecimento que ela não estava bem de saúde, arranjava um tempinho em meio ao expediente e passava para ver como estava.



Nossos pais nos deixaram legados fantásticos, nos ensinaram a crer em Deus, um Deus que pode todas as coisas, o Deus dos impossíveis. Eles nos deixaram também a herança do respeito e da reverência pelos pais, pois eles foram e deram exemplos de como tratar os pais. Meu pai, um homem duro, do pesado, muitas vezes bruto, mas de coração mole quando ouvia a voz de sua genitora. Suas palavras soavam em seus ouvidos como se fossem uma bela sinfonia; “Genivá”! Em paralelo, nossa mãe, oriunda também de um berço de dificuldades, mas nunca, em tempo algum obscureceu o valor que representavam seus pais. Nunca deixou de visitá-los e sempre lhes ofertava algo além da presença. Preocupou-se com os dois até o dia que foram embora. Quando soube que seu pai convalescia de problemas de saúde, pediu ajuda aos filhos e o trouxe para cuidar, e não deixou lhe faltar a medicação necessária. Fazia sua comida, algo diferente, especial, o fazia com amor, com carinho, e o alimentava. Cuidou como pode e quando não pode, pediu ajuda, mas nada faltou para seu pai. Dizia ela que se pudesse teria feito mais.



Devemos ter respeito e reverência por aqueles que nos colocaram no mundo, independentemente do que nos virá. Deus promete que aqueles que assim procedem, terão longevidade em suas vidas. A longevidade não apenas no sentido físico/pessoal, mas também com as sementes que estamos deixando no decorrer dela. A extensão em nossos filhos e nos filhos de nossos filhos, a passagem do bastão da vida. Na vida secular vemos inúmeras autoridades serem colocadas por nós ou por quem de direito. Porém, de outro modo, as duas maiores autoridades instituídas na terra chama-se PAI E MÃE, e foram colocadas por Deus. Deus instituiu a família e nomeou os pais por referência até o fim de seus dias.





Ao seguir para ir comemorar o aniversário de meu pai lembrava todo tempo deste amor e devoção que mantinha por sua mãe. Oitenta e sete anos de vida, oitenta e sete anos de respeito por aquela que o colocara no mundo, pois, mesmo depois de sua partida, a memória dela nunca foi esquecida em seu coração.



Obrigado meu Deus pelos pais que me deste, por eles nos ensinarem sobre tua existência, e por terem sido as pessoas que foram nos passando exemplos e valores para nossa formação. Obrigado.



Forrest Guega – 01/03/2010.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Amigo das Águas I

Amigo das águas

Era o último bloco do jornal nacional daquela noite. O repórter começou a falar de dentro de um navio, enquanto a grande embarcação deslocava-se da costa terrestre em direção ao mar. Na cabine de comando entre o capitão e o timoneiro, aparecia a figura de um homem, um ancião, com cerca de seus setenta e quatro anos de idade, que indicava o caminho a ser seguido, orientava o condutor a desviar a nau de águas rasas e bancos de areia. Longe das imagens, o câmera dava cobertura a toda movimentação a sua volta, enquanto o repórter enfatizava o largo conhecimento que o homem possuía do grande oceano. Sua voz assumiu um tom diferente quando expunha a destreza e a facilidade do prático (guia) leigo, em navegar naquelas águas como se fossem as dependências de sua casa. Para nossa surpresa, depois do navio avançar e adentrar alguns quilômetros mar adentro, o rapaz da notícia chama a atenção de quem assiste dizendo que a missão não estava concluída, mas, que estava chegando a hora mais esperada de toda a reportagem.
O quadro seguinte apareceu na tela da TV mostrando a parte mais alta do navio, local que alguns chamam de “ninho da gávea”. Em cima dele, ninguém menos do que o ancião que conduzira até aquele local o transporte marinho, livrando-o das armadilhas submersas do litoral sergipano. A respiração do repórter nos dá a impressão de ter ficado presa, sua voz parece fugir e visivelmente ele também entra num momento de expectativa, como a dizer: o que irá acontecer! Bem próximo dali, um grupo de marinheiros também olhando para cima, começava a entoar um coro em uníssono, dizendo: “Pula Zé, pula”! Daí pra frente não se ouviu mais a voz de ninguém, entrou um fundo musical inserido pela produção nos studios, e em seguida aquele homem, o ancião, arremessou-se no espaço vazio entre o navio e o mar. Seu corpo descia como se fora uma flecha sibilando e cortando a brisa marinha, a proporção que arrancava suspiros dos que assistiam o salto próximo a ele. O projétil humano choca-se com a água e quase não se percebe o característico “extibungo”, som emitido no momento de um mergulho. Algumas gotas do líquido marinho se soltam e sobem como a dar as boas vindas ao ilustre visitante que por alguns segundos desaparece na imensidão do mar. O silencio e a expectativa são quebrados, quando retorna a voz do titular da matéria falando e apontando para um minúsculo vulto que se movimenta por sobre as águas do oceano atlântico, indicando que Zé já começara seu caminho de volta. Dali até a praia, a travessia duraria cerca de duas horas ou mais. Enquanto ele segue em sua jornada, a equipe de reportagem retorna a terra firme e fica a esperar pelo seu retorno. Em dado momento, por entre as ondas que quebram na praia surge a figura de um senhor, avançado em idade, sem camisa, apenas com uma bermuda longa tocando levemente na altura dos joelhos. No momento que pisa o solo enxuto, é perguntado se está cansado ou sentido alguma coisa. Numa simplicidade peculiar, “Zé Peixe”, como é conhecido, olha para trás, aponta para o grande oceano e diz que está acostumado com “ele”.
Minutos depois em sua humilde casa, Zé Peixe fala um pouco de sua atividade, conduzir navios até alto mar. Do conhecimento do litoral de seu estado e depois, para minha surpresa, revela que há muitos anos não toma água potável e alimenta-se apenas de frutas. Caminha até a geladeira, pega uma maça, senta-se no sofá da sala soltando os braços ao lado do corpo, como a relaxar e transmitir para a equipe de reportagem que aquilo, toda a extensão de seu nado, é rotina, é mesmo que um bom dia.
A cobertura jornalística termina com a imagem do homem jogando-se no espaço vazio e os marinheiros a gritarem: “Pula Zé, Pula”! Emocionante! Simplesmente emocionante! A ponto de me arrancar arrepios e fazerem meus olhos lacrimejarem emocionados com o que assistia da cadeira da minha sala. Maravilhado, comentei a reportagem com minha esposa e filhos, e disse que na primeira oportunidade que surgisse, quando estivesse em Aracaju, faria questão de encontrar aquele singelo homem nadador. O amigo das águas, “Zé Peixe”.



Guêga Cavalcanti – 14.03.07
A próxima crônica

Não tenho lembrança de quando a ouvi, ou li. Mas hoje, ao escutar o noticiário esportivo recebi a notícia com pesar seguido de um sentimento de saudade. Partiu Humberto de Campos. Esta foi a frase dita pelo apresentador. Talvez poucos o conheciam, ou ouviram falar. Como pessoa, usaria um termo do qual o mesmo se classificava: um abusado. Como cronista esportivo, demorará a surgir outro, na coluna escrita do matutino e no programa do rádio. Humberto foi na história do rádio paraibano um diferencial em toda sua carreira. Tive o privilégio de acompanhar seus comentários desde criança, quando após o almoço deitava na cama ao lado de Pedrinho, meu irmão, para ouvir os programas que marcaram época na radiofonia campinense. Eram eles: “Os Filmes do Dia”; e o mais ouvido, “Jogo Duro”. Sua voz soava grave através do rádio e as palavras eram pronunciadas com sílabas bem explicadas, os “R’s” e “S’s”, redobravam e a entonação era o que não faltava na voz deste locutor. Engraçado, o curto programa dos cinemas da cidade era só pra anunciar os filmes, mas Humberto dava um “caldo” diferente tecendo um rápido comentário quando a projeção não era boa.
Conheci pessoalmente “seu Humberto”, quando o mesmo parava seu fusca amarelo na esquina da antiga CELB, para tomar uma “gelada”; sorvete raspado de coco com maracujá, diga-se, da mais barata. Saíamos da Escola Normal, também com o mesmo intuito e por coincidência nos encontrávamos rodeando o carrinho de geladas de seu Cícero, ou Ciço, (como ele chamava). Sempre que podia, fosse no rádio ou lendo suas crônicas nos matutinos de Campina, o fazia, pois além de um bom comentário ou alguma história mirabolante (na falta de futebol), Seu Humberto também dava uma aula de português. Na aplicação da gramática era exigente até dizer basta. Mas por outro lado, brincava com nomes de companheiros seus, ou “assassinava” a escrita e a pronuncia, trazendo no ar da seriedade um pouco de comicidade, tipo: “Leonardo póbrema”, “o pessoá da grôbo”, “a ráida”, e outros que não lembro agora. Humberto foi uma de minhas fontes, a forma séria e ao mesmo tempo temperada com romantismo e irreverência me serviu de guia. De algumas crônicas suas que guardei, jamais esquecerei, “o meu filho doutor”. Escrita para seu filho que se formava na mesma turma com Rodrigo. Recortei e dei pra Lucinha, ler. Mesmo antes de terminar, ela passou o papel para alguém concluir, pois sua voz estava embargando e de seus olhos desciam lágrimas, tamanho era o sentimento de amor colocado naquelas linhas. Linhas escritas com o coração. Mais tarde, tomei o título emprestado e escrevi para Lita, desta feita, pela chegada da formatura de Giuseppe, nosso primeiro doutor.
O grande cronista esportivo teve poucos simpatizantes em sua trajetória, com especialidade os que estavam dentro das quatro linhas. Seus comentários sobre “os boleiros”, eram contundentes, fortes. Jogadores iniciando carreira e os que vinham de fora, quando não correspondiam, entravam bem em suas crônicas. Sobretudo, ganhou esta fama por ser realista, transmitir a verdade, dar cara e corpo ao que dizia através dos microfones da rádio.
Um fato para mim que mais marcou a trajetória deste locutor, ocorreu no ano de mil novecentos e oitenta. Após dez anos trabalhando na rádio Caturité, Humberto de Campos retornava para a Rádio Borborema. Coincidentemente a chamada que anunciava sua volta trazia como fundo musical, uma música de Gal Costa, que fazia sucesso na época. “E assim se passaram dez anos”. A música iniciava e depois de alguns segundos, aquele incomparável vozeirão entrava dizendo: “estou de volta depois de dez longos anos”.
A próxima crônica, quando ouvirei? Talvez, quando tentar sintonizar a rádio da imaginação e ouvir bem distante o fundo musical indicando mais uma edição dos “Filmes do Dia” e “Jogo Duro”. Saudades.


Guêga 23.10.06