Amigo das águas
Era o último bloco do jornal nacional daquela noite. O repórter começou a falar de dentro de um navio, enquanto a grande embarcação deslocava-se da costa terrestre em direção ao mar. Na cabine de comando entre o capitão e o timoneiro, aparecia a figura de um homem, um ancião, com cerca de seus setenta e quatro anos de idade, que indicava o caminho a ser seguido, orientava o condutor a desviar a nau de águas rasas e bancos de areia. Longe das imagens, o câmera dava cobertura a toda movimentação a sua volta, enquanto o repórter enfatizava o largo conhecimento que o homem possuía do grande oceano. Sua voz assumiu um tom diferente quando expunha a destreza e a facilidade do prático (guia) leigo, em navegar naquelas águas como se fossem as dependências de sua casa. Para nossa surpresa, depois do navio avançar e adentrar alguns quilômetros mar adentro, o rapaz da notícia chama a atenção de quem assiste dizendo que a missão não estava concluída, mas, que estava chegando a hora mais esperada de toda a reportagem.
O quadro seguinte apareceu na tela da TV mostrando a parte mais alta do navio, local que alguns chamam de “ninho da gávea”. Em cima dele, ninguém menos do que o ancião que conduzira até aquele local o transporte marinho, livrando-o das armadilhas submersas do litoral sergipano. A respiração do repórter nos dá a impressão de ter ficado presa, sua voz parece fugir e visivelmente ele também entra num momento de expectativa, como a dizer: o que irá acontecer! Bem próximo dali, um grupo de marinheiros também olhando para cima, começava a entoar um coro em uníssono, dizendo: “Pula Zé, pula”! Daí pra frente não se ouviu mais a voz de ninguém, entrou um fundo musical inserido pela produção nos studios, e em seguida aquele homem, o ancião, arremessou-se no espaço vazio entre o navio e o mar. Seu corpo descia como se fora uma flecha sibilando e cortando a brisa marinha, a proporção que arrancava suspiros dos que assistiam o salto próximo a ele. O projétil humano choca-se com a água e quase não se percebe o característico “extibungo”, som emitido no momento de um mergulho. Algumas gotas do líquido marinho se soltam e sobem como a dar as boas vindas ao ilustre visitante que por alguns segundos desaparece na imensidão do mar. O silencio e a expectativa são quebrados, quando retorna a voz do titular da matéria falando e apontando para um minúsculo vulto que se movimenta por sobre as águas do oceano atlântico, indicando que Zé já começara seu caminho de volta. Dali até a praia, a travessia duraria cerca de duas horas ou mais. Enquanto ele segue em sua jornada, a equipe de reportagem retorna a terra firme e fica a esperar pelo seu retorno. Em dado momento, por entre as ondas que quebram na praia surge a figura de um senhor, avançado em idade, sem camisa, apenas com uma bermuda longa tocando levemente na altura dos joelhos. No momento que pisa o solo enxuto, é perguntado se está cansado ou sentido alguma coisa. Numa simplicidade peculiar, “Zé Peixe”, como é conhecido, olha para trás, aponta para o grande oceano e diz que está acostumado com “ele”.
Minutos depois em sua humilde casa, Zé Peixe fala um pouco de sua atividade, conduzir navios até alto mar. Do conhecimento do litoral de seu estado e depois, para minha surpresa, revela que há muitos anos não toma água potável e alimenta-se apenas de frutas. Caminha até a geladeira, pega uma maça, senta-se no sofá da sala soltando os braços ao lado do corpo, como a relaxar e transmitir para a equipe de reportagem que aquilo, toda a extensão de seu nado, é rotina, é mesmo que um bom dia.
A cobertura jornalística termina com a imagem do homem jogando-se no espaço vazio e os marinheiros a gritarem: “Pula Zé, Pula”! Emocionante! Simplesmente emocionante! A ponto de me arrancar arrepios e fazerem meus olhos lacrimejarem emocionados com o que assistia da cadeira da minha sala. Maravilhado, comentei a reportagem com minha esposa e filhos, e disse que na primeira oportunidade que surgisse, quando estivesse em Aracaju, faria questão de encontrar aquele singelo homem nadador. O amigo das águas, “Zé Peixe”.
Guêga Cavalcanti – 14.03.07
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
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